Porque reportagens com cegos têm que ser carregadas de piedade ou admiração?

Já disse aqui e devo reiterar que fico puto quando assisto reportagens que, por algum motivo, envolvem deficientes visuais e, ao mesmo tempo, por outro motivo que detalharei abaixo, têm uma obrigação nefasta de enfatizar uma superação, seja manifestando piedade ou admiração.

Eu, por estar envolvido com algumas temáticas relacionadas à deficiência visual, já participei de algumas reportagens e sempre fui desconfiado para bloquear qualquer viés pejorativo e preconceituoso que costumam pautar muitas dessas. Acho que, pelo fato das minhas terem sido poucas, e mais relacionadas à tecnologia, não precisei intervir durante, nem me chatear ao assistir depois.

Mas é fato que há uma tendência tosca de reportagens que pautam a vida de um deficiente visual virem carregadas de comentários piedosos ou admirados por parte do repórter e de quem o apresenta. Repare que, na maioria de reportagens como estas, sempre tem uma musiquinha fúnebre de fundo e um repórter no alto da sua superioridade manifestando o seu preconceito nato. Então é um tal de “você ai que vive reclamando da vida, assista a essa reportagem”, “olha só, APESAR de cego, ele trabalha”, “que maravilha inacreditável você conseguir fazer tudo isso mesmo sendo cego”, “reparem que ele faz direitinho mesmo hein”… E é disso a pior!

Creio que matérias com uma pessoa cega, apresentando a sua autonomia e independência, seja no seu cotidiano, seja no mercado de trabalho, são importantíssimas para mostrar a nossa capacidade e potencialidade. A mídia televisiva tem um papel fundamental no processo de transformação da sociedade e seria ótimo se os canais de comunicação reconhecessem tal papel, adotando o compromisso de valorizar uma pessoa com deficiência, mostrando, sem pré-julgamentos desnecessários, as suas capacidades APESAR de determinadas limitações.

Mas infelizmente não é isso que acontece na maioria das reportagens e em todas que pautam aqueles programinhas sensacionalistas que geralmente se digladiam pela audiência da hora do almoço ou dos finais de semana. Independente do assunto, gosto de assistir qualquer reportagem que envolva pessoas cegas, porque entendo que é importante conhecer outros olhares e experiências. No entanto, quando o troço se escamba pro coitadismo, perco um tanto a paciência e mudo de canal. E nem vou entrar no mérito de que muitas pessoas cegas são permissivas e se aproveitam deste coitadismo para obter vantagens e aparecer.

É fato que para a sociedade, em se tratando de pessoas cegas, ou é oito ou oitenta, ou se subestima ou se superestima, ou é o coitadinho ou é o super-homem, não havendo meio termo. E devo ecoar mais uma vez aqui que não é bem assim. É lógico que ninguém tem orgulho de ser cego ou deseja uma cegueira pra alguém nos votos de fim de ano. No entanto, por mais trágico e dramático que tenha sido esse encontro com uma cegueira, o indivíduo cego acaba conhecendo uma capacidade de readaptação que é uma característica inerente de qualquer ser humano.

Somos perfeitamente capazes de nos adaptar a quaisquer situações ou transformação destas. Nascemos com essa capacidade, tal qual nascemos com um cérebro, um coração e uma boca. O que acontece é que muitos optam por não utilizar essa capacidade de adaptação, o que é um direito destes, afinal é pra isso que existe o livre arbítrio. Mas não é destes que venho falar e sim daqueles outros pertencentes à maioria que inteligentemente e de uma forma natural se utilizam de tal capacidade para superar as limitações impostas por uma deficiência.

E com isso quero deixar claro que existe sim uma superação. Quem convive com uma cegueira ou qualquer outro tipo de deficiência sabe que conviver diariamente com limitações impostas por esta deficiência, procurando garantir a sua participação plena na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, é um processo constante e intenso de superação. Eu bem sei que quando saio cedo para pegar um ônibus, encarar ruas emburacadas, pessoas preconceituosas, profissionais despreparados e tudo mais que me cerca em meu cotidiano trata-se de uma superação felomenal que me impulsiona a encarar o dia seguinte. O que tento deixar claro aqui é que: APESAR do preconceito, da inacessibilidade, do despreparo, do coitadismo e da sociedade hipócrita com os quais convivo diariamente, procuro seguir minha vida normalmente, sem permitir que tais mazelas me atrapalhem.

Perceba que “sigo de boa, APESAR dos obstáculos” e não “sigo de boa, APESAR da deficiência”. Todos os “apesares” deste texto estão em caixa alta, e, fiz questão de destacá-los porque sei que o problema está justamente ai: no APESAR. O que acontece no senso comum e nas reportagens depreciativas é uma inversão da localização dos apesares. Imaginam muito equivocadamente que APESAR da cegueira / deficiência, conseguimos viver, quando, na verdade, isso acontece APESAR da ignorância alheia e das mazelas supracitadas.

Tendo então superado a questão da superação, devo deixar de redundâncias e ir direto ao problema das tais reportagens. Na verdade o que acontece é que quase sempre dão ênfase à superação, quando deveriam dar ênfase ao cotidiano e às capacidades daquelas pessoas ou mesmo ao real mote da reportagem. Quanto às falas carregadas de um misto fétido e hipócrita de piedade com admiração encima de uma musiquinha funesta e agourenta, nem preciso falar onde deveriam enfiar né? Mesmo assim, di-lo-ei: as musiquinhas, enfiem lá na pastinha da equipe que cobre funerais e, quanto às falinhas, primeiro separem a admiração da piedade, palavras tão desconexas, e depois usem esta pra cobrir reportagens que pautem alguma caridade e aquela para cobrir reportagens que pautem alguma vitória ou virtude excepcional.

É urgente a necessidade que há de conscientizar a sociedade de que não existe mais a figura do cego pedinte de porta de igreja, do deficiente que era sacrificado por representar uma aberração, do portador de deficiência digno de pena, do pobre desgraçado cego de Gericó, dos cego místico que representava uma fonte de contato com Deus, do cego da Geni de Chico Buarque que era como os errantes, os retirantes, os loucos, os detentos e os que não têm mais nada… Os tempos hoje são outros, onde temos uma Constituição que gerou reconhecimento e garantia de direitos às pessoas com deficiência, onde o conceito de deficiência evoluiu positivamente com a Convenção da ONU, onde pessoas cegas têm cada vez ocupado o seu espaço na sociedade como sujeito de direitos e deveres e onde não cabe mais julgamentos preconceituosos e equivocados sobre as dificuldades e as capacidades alheias.

Então nobre repórter, se apodere do seu papel de agente transformador e de construtor de consciências, reconheça que os tempos mudaram, pratique o seu dever jornalístico de se informar antes de propagar reportagens, se insira no processo de inclusão de pessoas com deficiência, e, por fim, não permita viés preconceituoso e depreciativo em reportagens que envolvam pessoas cegas ou com qualquer outro tipo de deficiência. Resumindo: trate a pessoa cega como uma pessoa como ela é, evidenciando o seu papel como ser humano, trabalhador ou qualquer outra especificidade que seja tema da reportagem e não a sua cegueira, que nada mais é do que uma dentre tantas características suas, sendo que não é o caso de manifestar piedade pelas suas limitações, porque qualquer um as tem de alguma forma e nem é o caso de manifestar admiração, porque o que uma pessoa cega faz não é excepcional e sim um modo de viver como faz qualquer vivente deste planeta.

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2 comentários sobre “Porque reportagens com cegos têm que ser carregadas de piedade ou admiração?

  1. Ótima reflexão… sou deficiente visual e também me incomodo com certas reportagens tendeciosas e carregadas de preconceito. Mas é o mundo hipócrita em que vivemos ne? Onde a sociedade procura determinar o que deve ser aceito e o que deve ser normal. Cabe a nos aceitar ou ignorar. Aproveito para parabenizar pelas postagens deste blog. Já coloquei nos favoritos.

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